O primeiro post de um blog, da mesma maneira que o primeiro capítulo de um livro, é a parte mais difícil de todas. Não porque é mais difícil de se escrever tecnicamente, mas sim porquê é difícil saber por onde começar.
Minha idéia com este blog é a de emitir opiniões com algum embasamento sobre a Guerra. Este algum embasamento provém parcialmente de minha formação como historiador pela UFF (Universidade Federal Fluminense que, diziam, era a melhor da América Latina no curso...exatamente como alguém sabia ou avaliava isso...) e parcialmente de minhas leituras sobre o assunto. E aqui devo confessar, sou um partidário de ler antes de falar asneiras. Não se enganem, eu pronuncio asneiras de maneira profusa, e provavelmente direi algumas neste primeiro post, mas eu pelo menos tento pronunciar as mesmas depois de ler sobre o assunto. Se eu decido falar as asneiras após a leitura, então pelo menos a culpa é toda minha mesmo...ou seja, sou um idiota.
Mas, devo ressaltar, um idiota informado é bem melhor que um idiota ignorante.
Tendo dito isto, tenho que escolher um lugar por onde começar. E qual melhor lugar do que a própria definição de Guerra? E qual melhor definição do que a de Clausewitz? Se outros tantos homens mais qualificados escolheram começar por aqui, acho que eu deveria, pelo menos nesse momento, baixar a cabeça e seguir a multidão.
Se é verdade que a Guerra (usarei a forma capitalizada desta palavra porquê ela é o assunto principal do Blog) é a continuação da política por outros meios (ou, mais acuradamente representando o ponto de vista de Clausewitz, a continuação da política com a entremistura de outros meios), então deve se seguir que há objetivos políticos na Guerra. O conceito Clausewitziano de Guerra foi produzido em meio às guerras napoleônicas, e representa a condensação de uma série de idéias que flutuavam no imaginário europeu na época, mas também algumas considerações particulares que identificam Clausewitz como grande pensador.
É relevante mencionar que Keegan, em "A history of warfare", levantou o problema que esta afirmação de Clausewitz gera quando se pensa na Era Nuclear. Uma Guerra onde os dois lados podem virtualmente aniquilar o mundo não irá incluir, necessariamente, elementos políticos. Basta um louco com acesso ao botão (ou botões, ou telefone) e Shazaam!
Felizmente para a maior parte de meus futuros posts, lidarei com Guerras onde este elemento não existe ou, de outra maneira, é apenas incipiente (WW2 - aliás, usarei a notação americana para este conflito, mas prefiro A Grande Guerra para descrever a Primeira Guerra Mundial). Se eu colocar meu bico em assuntos como Coréia, Vietnã ou mesmo coisas mais recentes, terei que lidar com o que se poderia chamar de "Parágrafo Keegan" da frase de Clausewitz.
Voltando à vaca fria, os objetivos políticos de uma Guerra tendem a ser tão variados quanto forem os líderes de cada nação beligerante (além de seus comparsas, sejam eles correligionários ou simplesmente capangas). Inclusive, é certamente comum encontrar objetivos políticos mutantes em uma guerra um pouco mais longa que a Segunda Guerra do Golfo (a.k.a. invasão do Iraque 2003).
O exemplo mais clássico, pelo menos em minha opinião (e afinal não é para isso que estou aqui?), é o caso da abolição da escravatura na Guerra Civil Americana (1861-1865). Mesmo que Lincoln fosse um abolicionista (e era), a abolição não estava na agenda inicial da Guerra. Foi apenas no desenrolar do conflito, e devido a múltiplas pressões, inclusive a possibilidade do Sul libertá-los primeiro (!!!), que Lincoln realmente deu impulso à abolição como objetivo de Guerra. E para deixar claro o quanto um novo objetivo pode tomar conta da consciência, a abolição passou de um não-fator a maior fator no conflito. Se a Guerra começou como disputa sobre o direito de secessão e poder individual dos Estados, ela terminou como crusada para libertação dos escravos.
Ora, se as formas da Guerra são balizadas por visões e objetivos políticos distintos e variantes, também é lógico afirmar que as formas de conduta bélica serão distintas. E isto é tão óbvio que até o mais néscio dos estudantes pode captar. Que a conduta bélica dos Nazistas (sim, aqui vou eu na primeira generalização do blog) era diferente da conduta militar de Napoleão me parece óbvio, ainda que muitos historiadores discordem (o que prova que mesmo o mais néscio dos estudantes pode ser melhor do que alguns historiadores que andam publicando por aí).
Isso leva ao fato de que não só cada Guerra será diferente, mas também cada pedaço de cada Guerra será diferente. Isso se torna extremamente importante para entender Guerras complexas como as duas Guerras Mundiais ou as ainda impressionantes Guerras Napoleônicas. O importante é notar que as formas de conduta bélica são, pelo menos na minha opinião, sempre pautadas pela sociedade na qual foram desenvolvidas. Parece uma afirmação antropológica, mas é na verdade uma idéia que deriva, novamente em minha opinião, dos mecanismos produtivos da sociedade. Exemplos desses mecanismos e sociedades serão apresentados no futuro (como a Guerra Asteca de que trata Keegan).
Prefiro não entrar, pelo menos no primeiro post, nos detalhes Clausewitzianos da Guerra, porque é bastante óbvio que o assunto é não só complexo como extremamente especializado. Lembro-me claramente de selecionar passagens de Vom Kriege para discutir com meu professor de Filosofia (grande Cláudio...nome de imperador romano e grande influência sobre meu pensamento). Apenas para dar mais uma cagada mental em cima de Sun Tzu, devo ressaltar que sequer pensei em possivelmente levar uma passagem de seu livreto para minha aula de filosofia.
Toda essa ladainha acima serve para balizar meus posts futuros. Se eu desviar muito do viés político será para incluir a minha outra grande influência de pensamento, a saber, Marx. E por Marx quero dizer capitalismo, economia, produção, indústria, e não exatamente luta de classes.
Outro motivo para desvio será, já antecipo, um viés mais técnico. Durante minhas leituras, adquiri um conhecimento passável sobre máquinas de Guerra que parece estar ausente das obras de muitos autores que escrevem sobre Guerra. Isso sempre me deixou, na palavra inglesa, puzzled, algo como intrigado, estupefato, desconcertado. Como falar sobre Guerra sem conhecer os instrumentos de execução da mesma?
Chego assim ao fim de meu primeiro post, muito mais uma reflexão sobre o que dizer do que realmente alguma idéia de uso real...mas é o que é, um primeiro texto de um idiota informado.
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Seja bem vindo!
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ResponderExcluirÉ legal ver que você ainda esta vivo para escrever um blog. Boa sorte e grande abraço.
ResponderExcluirRafa,
ResponderExcluirexcelente iniciativa. Te conhecendo, sei que este blog vai ser bom e com certeza vai render diversas discussões interessantes, principalmente envolvendo um dos meus assuntos preferidos: morte.
Mas se me permite, quero ensaiar uma crítica literária. Parênteses são interessantes quando estamos conversando e estamos formando argumentos. Na linguagem escrita, é cansativo e requer atenção especial do leitor. Como se trata de um blog, ou pelo menos algo que você pode editar a vontade, eu sugiro que você tente colocar os parênteses para uma nova frase, quando possível, mesmo que o texto tenha que ficar maior por causa disso. Você já mostrou que parsimônia textual não vai ser uma propriedade do blog :p
Outra crítica, seria de conteúdo. Neste primeiro post, você deixou mais do que claro que você é escolado no assunto. Isso é importante, principalmente para o primeiro post, pois mostra aos potenciais leitores o que eles devem esperar, e será algo, no mínimo, erudito, e eu não me refiro à linguagem. Mas por isso mesmo, este cartão postal do seu blog tem que ser impecável. A argumentação está meio incompleta. O que você faz é citar autores e pessoas que te incluenciaram, a partir das quais (citações) você expõe as suas opiniões. O que me incomodou foi justamente esse "a partir". Em nenhum momento você se propõe a interpretar as citações que você faz, apesar de que eu imagino que você já tenha passado algum tempo decorrendo internamente sobre elas. Nós, leigos, precisamos de alguma conotação inicial, para que discussões e reflexões possam decorrer delas. O que você tem é um argumento que toma como verdade toda e qualquer citação anterior na sua forma mais crua, e isso me incomoda. O que quero dizer, no fundo, é que seria legal você dedicar um parágrafo para uma citação, para que sejamos devidamente apresentados a ela, e não uma cagação de regra.
Por fim, coloca um 'about me' decente, com sua formação ek outras coisas pertinentes. Por mais despretencioso que você tente se fazer parecer, deixe espaço para quem resolver te levar a sério. Além disso, seria interessante saber a frequencia com que você pretende postar.
É isso! Inté!
boa sorte , espero ver matérias interessantes aqui eim, abraço!
ResponderExcluirVc leu a biografia do Rommel que lhe dei?
ResponderExcluirVou lendo então e comentando a medida que vc for escrevendo...
Boa sorte!
O guido apontou todos os problemas com meu post original.
ResponderExcluirSim, preciso de um about me decente, afinal, como poderei posar de intelectual metido a besta?
E sim, tenho que condensar as idéias em algo mais carnudo. Vou tentar fazer essas duas coisas amanhã (hoje ainda tem Lakers X Magic!).
Silvio, li o livro sobre Rommel sim (não chamaria de biografia), além de ter lido "Infantry Attacks" (A Infantaria no Ataque), do próprio Rommel. Ele é um de meus tópicos favoritos devido à enorme quantidade de mitos e histórias que circulam sobre ele, tanto no meio leigo quanto no intelectual.
De qualquer maneira, pretendo manter a postagem de novos tópicos semanalmente, ou quando der na telha, o que for menor.
E, para manter a idéia de que eu sempre falo asneiras viva, notei uma asneira quando falei sobre mudanças de objetivo político durante guerras MAIORES que a do Iraque 2003.
ResponderExcluirOra bolas, nessa guerra exatamente vimos pelo menos três mudanças de objetivo político em cerca de 1 ano...
Não me aprofundei tanto quanto você, mas li bastante sobre as guerras e procurei ver sobre uma ótica diferente. E gostaria de comentar alguns pontos abordados por você no primeiro blog. O primeiro é sobre o Sun Tzu. Apesar de não ter lido nem ele nem o Clausewitz, a questão dio Sun Tzu é que estrou em um modismo empresarial idiota. Os empresários o lêem pois a moda diz assim. Acredito que 98% dos que lêem o livro ou o interpretarão de maneira equivocada ou não o interpretarão de maneira alguma. Já apareceram gurus recomendando livros variados e seus vieses empresariais. Já falaram de Arte da Guerra, Bíblia, O Pequeno Príncipe (Saint Exupéry), O Príncipe (Maquiavel) e etc e como os executivos e empresários que os lêem podem tirar lições que os irão ajudar. Qualquer livro ensina uma lição. Até o manual de culinária da Ofélia.
ResponderExcluirSobre a questão de tecnologia das guerras, esta é uma questão complicada. O fato é que, seguindo a famosíssima lei de Moore, o desenvolvimento tecnológico cresce de maneira exponencial e, creio que perder parte de um livro falando sobre tecnologias que, no virar da esquina se tornarão obsoletas é perda de tempo. As guerras de hoje já não são travadas quanto as guerras de 15 anos atrás. E não serão os mesmos equipamentos(?) de daqui a 15 anos. Cada vez mais o intangível suplantará o tangível. Concordo que para ocupar um país precise-se do tangível (soldados, tanques, navios, etc), mas creio que no futuro bem recente, estes ativos só servirão de meios indiretos de danos. Por exemplo, atualmente as principais nações utilizam ativos tangíveis para, inicialmente causar um bloqueio, e estrangular economicamente o inimigo.
Isso leva a um segundo ponto: o aspecto econômico da guerra. Segundo o Reinaldo Gonçalves, A própria guerra é um vetor de geração de demanda e desenvolvimento econômico. Basta observar a guerra e a era de ouro do pós guerra, as quais tiraram o mundo capitalista do buraco causado pelo crash de 1929. Hoje, o grau de interdependência econômica entre as nações mudou a dinâmico do jogo. Por exemplo, é impossível dissociar a invasão do Iraque/Kuwait e Afeganistão sem pensar nas implicações econômicas causadas pelas imensas reservas de petróleo. Se os terroristas estivessem em Ruanda, os EUA teriam o mesmo ímpeto?
Um abraço,
Leonardo
Interessante a idéia. E como aquele seu timinho acaba de despachar aquele outro timinho que foi o timinho menos timinho que chegou até a final, acho que isso pode ser considerado algo como um bom auspício...
ResponderExcluirEssa negócio de aspectos econômicos da guerra que o Léo levantou é um ponto interessante. Com certeza é impossível pensar a guerra sem pensar a economia, mas, no meu ponto de vista, isso só quer dizer que os conflitos políticos de hoje giram em torno do campo econômico. Que a guerra ainda seja a guerra, e, portanto, o mesmo fenômeno, eu não acho que possa ser descartado. Pelo menos não por isso. Já os soldados ouvindo os seus ipods enquanto atiram um tanque, aí eu tendo a acreditar que tem algo mais... tipo, como se a experiência da guerra tivesse mudado também.
O Léo também falou nos terroristas. Eu sugiro que o seu próximo post seja sobre essa 'War on terror'. Acho que é um tema interessante, até porque da maneira que você definiu a guerra você teria que aceitar que a guerra contra o terror é de fato uma guerra. Só que se trata de um conflito que, a rigor, não é contra um estado nacional. É claro que ele vai traduzir em bombardeios contra estados nacionais, não tem outro jeito, mas o inimigo da guerra é, declaradamente, um grupo terrorista cujas ações não representam nenhum estado nacional. Ou representam?
Esse realmente é uma boa sugestão de tópico.
ResponderExcluirQue é fato que a experiência da Guerra mudou muito é inegável. Eu sempre disse que Sun Tzu, por exemplo, era um Chinês falando sobre Guerra Chinesa para outros Chineses, e mantenho essa afirmação. Ele tem lições importantes a serem tiradas de seu texto, mas elas não são universalmente aplicáveis.
Sobre a idéia do leonardo de que soldados e tecnologia de guerra se tornarão menos importantes, eu não conseguiria concordar menos. Sim, a tecnologia se desenvolve cada vez mais rápido, e sim, há cada vez menos soldados no campo de batalha (que tem se tornado cada vez mais virulento para o infante).
Mas isso absolutamente não quer dizer que eles não são vitais para o esforço de guerra. Se a tecnologia se tornará obsoleta em breve, ainda assim é ela que será usada como instrumento de destruição. Se o soldado está cada vez mais acuado no campo, ainda assim é ele que tem de entrar de casa em casa para limpar o adversário de sua capital.
Em suma, minha tese é a de que a Guerra Clausewitziana ainda vive.
Sem dúvida terei que abordar o aspecto de Guerra econômica, mas pretendo mostrar que ela não é tão nova quanto possa parecer e pode (e tende) assumir o aspecto de Guerra Clausewitziana sob pressões das circunstâncias.
Dei uma polida no post original, coloquei o parêntese em post separado e fiz um update no About me.
ResponderExcluirDeixa eu ver se consigo elaborar meu ponto sobre a economia na guerra um pouco melhor.
ResponderExcluirEu acho que o que eu quero dizer (e essa expressão da a medida da minha exitância) é que os motivos pelos quais se fazem as guerras não podem ser confundidos com o fenômeno da guerra. Até porque na maioria das vezes, e especialmente no que diz respeito à guerra, as razões não são mais do que álibis. O que para mim é verdadeiramente importante no fenômeno da guerra é compreendê-la como um recurso necessário de nossa organização política. E isso seja qual fôr a forma dessa organização. Da Babilônia até a União Européia. A guerra é sempre aquela possibilidade presente que determina as relações entre as diferentes comunidades políticas humanas.
O que é muito estranho é que ela ganhe uma lógica e um impulso interno para além disso. É justamente o que você tinha dito sobre a bomba atômica. A bomba é um desenvolvimento científico que faz sentido se pensarmos a guerra como um fenômeno independente, mas que não faz o menor sentido se pensamos ela como servindo a objetivos políticos humanos. É extamente porque coisas como a bomba atômica são desenvolvidas que eu acho que somos autorizados a pensar que a guerra é mais do que um simples instrumento de resolução de disputas. Sejam essas disputas quais forem. Inclusive econômicas.